Gabriel Leone: "Estou sempre aberto ao novo, ao desafio"
Artista encena ‘Hamlet’ aos 32 anos e estreia filme baseado em livro de Daniel Galera enquanto, já consagrado como ator - um dos mais celebrados e prestigiados dos últimos anos -, se assume cantor com a edição do álbum “Minhas lágrimas”

Gabriel Leone anda às voltas com fantasmas familiares no palco e na tela de cinema. Enquanto encara aos 32 anos o desafio de dar vida a Hamlet, encenando as angústias do príncipe da Dinamarca nas ruínas do cinema Copan, na capital paulista, em montagem em que o diretor Rafael Gomes procura aproximar do público o texto escrito por Shakespeare por volta de 1600, o ator protagoniza outro jovem em crise no filme “Barba ensopada de sangue”, em cartaz nos cinemas. No longa-metragem dirigido por Aly Muritiba a partir de adaptação do livro best-seller do escritor Daniel Galera, o artista é Gabriel, jovem que, após a morte do pai, tenta iniciar outro ciclo existencial enquanto se depara com as próprias origens ao investigar o assassinato do avô. “São duas jornadas de autoconhecimento. O Gabriel do filme fala muito com Hamlet. Enquanto Gabriel pega a estrada para ir em busca do ancestral dele, Hamlet começa a peça com o pai morto, renegando aquele universo e querendo ir embora”, reflete Leone, um dos atores mais celebrados e prestigiados dos últimos anos. A reflexão do ator é feita ao fim da entrevista concedida a Flo nas ruínas do Cine Copan. Enquanto circula pelo espaço em reconstrução e transformado em palco antes de dar origem a outro cinema, o ator carioca se mostra afável e amoroso no trato com todos, sem a aura de “astro internacional” que, se quisesse, Gabriel Leone poderia adotar. Desde 2022, ano em que filmou “Ferrari” (2023) sob direção de Michael Mann, Leone abriu portas no mercado internacional e já integrou o elenco da série norte-americana “Citadel”, cuja segunda temporada tem estreia prevista para este ano de 2026. Desde então, o ator tem equipe em Los Angeles (EUA) para gerenciar trabalhos fora do Brasil. De tempos em tempos, Leone viaja para lá para fazer contatos e testes. Contudo, enfatiza que não faz “carreira internacional”. “Eu enxergo minha carreira como única. Não tem a carreira nacional e a carreira internacional. É a minha carreira. São as minhas escolhas. Não tenho pressa de trabalhar fora do Brasil. Não vou topar qualquer personagem só para trabalhar lá fora. Para mim, o que continua sempre importando são a história, o personagem, os artistas com quem eu vou trabalhar...”, ressalta o ator, cuja visibilidade internacional foi ampliada com a participação no filme “O agente secreto”, com o qual o Brasil concorreu ao Oscar de 2026 em três categorias. Leone inclusive estava lá na cerimônia do Oscar, ápice da jornada internacional do filme de Kleber Mendonça Filho, iniciada na França em 2025 com a ovação recebida pelo longa no Festival de Cannes. “Foi uma campanha linda, histórica. Tudo o que aconteceu com ‘O agente secreto’ foi coerente e justo com o grande filme que ele é”, avalia o ator. O menino que leu “Hamlet” na escola, antes mesmo de decidir ser ator, se tornou um dos nomes mais relevantes do audiovisual. Um ator-grife, disputado antes mesmo dos 30 anos, um artista que jamais se deslumbrou e que credita parte do sucesso ao que chama de ‘ralação’. “Tô feliz e realizado por estar realizando tantos projetos pessoais. Mas a sensação que eu tenho é de que tudo é fruto de suor, dedicação, construção e escolhas feitas desde o início da minha carreira. São muitas coisas ao mesmo tempo, mas foram coisas plantadas há muito tempo”, relativiza Leone. O momento de realização pessoal de Gabriel Leone inclui o lançamento do primeiro álbum do artista, “Minhas lágrimas”, disco produzido por Tó Brandileone (do grupo 5 a Seco) sob direção artística de Marcus Preto. “Sim, agora já me considero um cantor”, exulta o ator, um admirador de MPB e colecionador de LP que formou banda de rock no colégio e que, mais recentemente, passou a vasculhar os sebos de discos de São Paulo na companhia de Preto. No álbum “Minhas lágrimas”, Leone dá voz a músicas menos conhecidas da MPB com “um pé no rock”. Antes de começar a entrevista, o artista contou feliz ao repórter da Flo que recebeu feedbacks entusiasmados de compositores como Ivan Lins e Djavan, de quem regravou “Choro das águas” e “Segredo”, respectivamente. Lançado em março, o álbum gera show e chega após Leone já ter gravado com o grupo Boca Livre e de ter cantado com Milton Nascimento em documentário sobre o cantor. Sem falar nos trabalhos como ator que exigiram o uso dos dotes vocais de Leone, caso sobretudo do filme “Meu álbum de amores” (2022), dirigido pelo mesmo Rafael Gomes que conduz o ator em “Hamlet”. No filme, Leone viveu dois personagens e um deles, Odilon Ricardo, era um cantor popular. Foi com a voz do personagem que Leone cantou as músicas compostas por Arnaldo Antunes e Odair José para a trilha sonora do filme, disponível nas plataformas de streaming com a voz de Leone. “A música se transformou em uma ferramenta de trabalho como ator. Mas ela estava sempre a serviço do personagem. Na gravação do álbum, o grande desafio foi encontrar a minha voz de cantor. Gosto muito do resultado do disco. Sinto que as composições estão bem defendidas por mim”, avalia Leone, ressaltando que tom denso das letras se conecta com o ator dramático que se ele se tornou desde que pôs os pés na profissão como integrante da companhia de teatro do colégio em que estudava. De lá para cá, poucos atores conseguiram tanto em pouco tempo em trajetória que, no caso de Leone, foi impulsionada há dez anos a partir da atuação do ator na novela “Velho Chico” (2016). E, conversando com Leone, tem-se a certeza de que muito ainda está por vir. “Estou sempre aberto ao processo, ao novo, a ser desafiado. Isso é a coisa mais maravilhosa da minha profissão. É o que me faz feliz”, resume o ator e, agora, cantor.