Música _ 30 maio 2026 _ por Mauro Ferreira

Lenine experimenta a "tecnologia do afeto"

O artista pernambucano estreia turnê em maio e celebra a família e as raízes nordestinas no primeiro álbum de estúdio em dez anos, o celebrado "Eita"

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Lenine recuperou a cor e entrou em 2026 nos tons da alegria. Após longo período depressivo em que revelou ter se sentido “cinza”, o cantor, compositor e músico pernambucano voltou à vida. E à música. “Fiz as pazes comigo, redescobri o prazer de compor, tocar e subir no palco”, celebra o artista, em entrevista a Flo. “Eita”, álbum lançado por Lenine no fim de 2025 juntamente com o homônimo filme de média-metragem, é o resultado concreto do processo de pacificação interior do artista. Primeiro álbum gravado em estúdio pelo cantor com músicas inéditas em uma década (o último disco com repertório inteiramente novo, “Carbono”, saiu em 2015), “Eita” recebeu aclamação geral de público e crítica. A partir de maio, Lenine transpõe o consagrador álbum para o palco em turnê que começa em 22 de maio, em Fortaleza (CE), e segue para outras seis cidades até setembro, quando o artista apresenta o show em Buenos Aires, Argentina. Lenine credita a ovação de “Eita” ao “tempo gigante” entre um lançamento e outro. É como se discos e shows intermediários feitos ao longo desses dez anos, como “Em trânsito” (2018) e “Rizoma” (2022), não tivessem suprido a sede dos fãs e jornalistas por um trabalho inédito desse artista que se lançou em 1983 com “Baque solto”, álbum dividido com o parceiro Lula Queiroga, mas que somente começou a chamar a atenção dez anos depois com “Olho de peixe” (1993), outro álbum em dupla, desta vez com o percussionista Marcos Suzano. “O ‘Eita’ simboliza a redescoberta do meu prazer, que eu devo ao núcleo familiar, sobretudo ao Bruno”, ressalta Lenine. O artista se refere ao filho do meio, Bruno Giorgi, engenheiro de som que assina a produção musical do álbum e a direção artística do filme roteirizado por George Moura (autor de novelas como “Guerreiros do sol”) com o filho João Moura. Foi Bruno quem estimulou Lenine a recuperar as cores no período mais cinzento da vida do artista, a começar por ida semanal ao estúdio mantido por ambos. Quarta-feira foi o dia da semana escolhido para a “fisioterapia” musical. Os exercícios surtiram efeito ao longo dos anos. Contudo, questão de ordem médica também contribuiu para nublar os dias. Otto, filho de Bruno, nasceu prematuro e precisou ficar internado durante três meses. “A família se mobilizou e ficou solidária”, lembra Lenine. A família inclui a mulher Anna Barroso, parceira de vida e musa inspiradora de canções como “Meu chamego”, e os filhos João Cavalcanti e Bernardo Pimentel. Cavalcanti, o primogênito, é cantor e compositor, tendo assinado no álbum “Eita” a letra de “Foto de família”, música gravada por Lenine com Maria Bethânia. Bernardo Pimentel, o caçula, assina a assistência de direção do filme que encadeia os clipes das 11 músicas do disco em roteiro que conta uma história. À família de sangue, juntaram-se membros da família da vida, os “afilhados”, como Lenine os chama. Um deles é Maria Gadú, com quem Lenine divide o canto do abrasivo maracatu ambientalista “O rumo do fogo”, parceria do compositor com o conterrâneo Lula Queiroga dos primórdios da carreira. “Voltei a me divertir”, revela Lenine, ao detalhar o processo artesanal de composição e gravação do álbum. Esse modo artesanal foi posto em prática com o que Lenine conceitua de “tecnologia do afeto”. E, nesse mosaico de benquerenças, o cinema contribuiu com memórias afetivas dos tempos em que Lenine era espectador fiel dos filmes de arte que passavam em cinemas do Recife (PE) em sessões programadas em horários insólitos, como as manhãs de sábado e domingo. “Sempre fui cinéfilo. Eu vivi aquilo. O estímulo das canções que eu faço vem sempre do olhar”, salienta Lenine, acrescentando que enxerga álbuns como “Eita” como um “romance sonoro”, não como um punhado de canções. Em “Eita”, filme disponível no canal do cantor no YouTube, Lenine é o criador das histórias encenadas na sequência das músicas. É algo bem diferente do que gravar um clipe, prática comum nos anos 1990 – década da explosão do artista com álbuns individuais como “O dia em que faremos contato” (1997) e “Na pressão” (1999) – quando a MTV dava as cartas no jogo do mercado fonográfico. “Era doído. Eu tinha que dublar o que já havia gravado e tinha que atuar com um personagem que eu não tinha criado”, lembra. No tempo próprio do filme “Eita”, Lenine não impõe a pressão ao espectador. “Não estou sujeito à urgência de capturar a atenção das pessoas nos primeiros 15 segundos”, exulta, em alusão à necessidade conquistar ouvintes já no primeiro acorde, praxe nos aplicativos de áudio e em redes sociais como o TikTok. Sem sair do próprio tempo, Lenine já nem finge ter paciência com a xenofobia de cariocas e paulistanos com o Nordeste do Brasil, alvo do afeto do álbum “Eita”. “Qualquer sudestino diz que vai passar as férias no Nordeste, como se o Nordeste fosse uma mesma coisa. O Nordeste é uma infinidade de grupos, culturas e etnias. Ainda estamos no processo de reconhecimento da dimensão desse país e do quanto ainda falta descobrir o Brasil”, endurece Lenine, sem perder a ternura que rege a tecnologia do afeto, mote do disco, filme e show que trouxe o artista à tona após anos cinzentos.