Artes _ 09 outubro 2026 _ por Mauro Ferreira

Lilia Cabral, uma atriz que faz um monte de gente feliz

Uma das grandes atrizes do país, Lilia Cabral vive Rita Lee em monólogo de enorme sucesso no teatro, volta à TV como vilã e aplaude a trajetória da filha Giulia Bertolli como atriz, escritora e produtora.

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Lilia Cabral tinha dez anos em 1967 quando viu, pela TV, Rita Lee (1947 – 2023) se apresentar com o grupo Os Mutantes em festival da canção. Como muitas garotas da época, Lilia quis ter a franja e o cabelo comprido da cantora. A admiração se intensificaria na adolescência, já na década de 1970, a ponto de Lilia sair de casa, escondida do pai repressor, para assistir a shows de Rita Lee, então já em carreira solo. Os mais místicos talvez interpretem toda essa admiração como premonição inconsciente de que, em 2026, quase 50 anos depois da menina paulistana de dez anos copiar a franja da roqueira, Lilia viveria Rita Lee no palco já como uma atriz consagrada, uma das maiores do Brasil. Sim, Lilia Cabral interpreta a cantora em “Rita Lee – Balada da louca”, monólogo em cartaz no Rio de Janeiro, após aclamada temporada de ingressos esgotados em São Paulo, e celebra a oportunidade. “Como atriz, é fascinante. O Brasil seria outra coisa sem Rita Lee”, sentencia Lilia em entrevista exclusiva a Flo. Assim que recebeu o convite de Guilherme Samora, autor do texto baseado no último livro de Rita Lee, “Uma outra autobiografia” (2023), a atriz passou a dedicar quase duas horas diárias ao preparo prazeroso de assistir a entrevistas e programas de Rita. Começou ali o processo de construção da atriz, preocupada em encontrar a alma da cantora sem cair na imitação de trejeitos. “Fiquei vendo e ouvindo Rita. E observando. Ela não era agressiva. Ela era doce. Mas de repente ela se destemperava porque ela era rock’n’roll. E esse rock’n’roll entrava tanto na música como na vida dela”, interpreta Rita. Lilia vai conciliar a temporada carioca de “Rita Lee – Balada da louca” – espetáculo do qual é coprodutora em parceria com Edinho Rodrigues e Vanessa Campanari – com as gravações da próxima novela das 18h da Globo, “Lá na minha terra”, trama de época na qual dá vida a uma vilã. “Lá na minha terra” é a 33ª novela de Lilia Cabral em trajetória televisiva iniciada há 45 anos na novela “Os imigrantes”, estreada em 1981. Na época, a atriz tinha somente três anos de carreira iniciada no teatro em 1978 com a atuação na peça “Marat Sade”. Ainda que sempre tenha obtido reconhecimento e popularidade no teatro e na TV, onde conquistou o público com personagens cômicas como a Aldeíde de “Vale tudo” (1988) e a beata Amorzinho de “Tieta” (1989), o turning point na carreira da atriz aconteceu em meados dos anos 2000 simultaneamente no teatro – com o sucesso avassalador de “O divã” (2005), peça baseada no livro de Martha Medeiros que depois virou filme e série de TV – e nas novelas. Interpretar a amargurada personagem Marta de “Páginas da vida” (2006), novela de Manoel Carlos (1933 – 2026), rendeu a Lilia a primeira de duas indicações ao Emmy Internacional, o Oscar da TV (a segunda viria pela intepretação de Tereza em 2009, em “Viver a vida”, outra novela de Manoel Carlos). Desde então, Lilia Cabral passou a ser reconhecida como uma atriz completa, capaz de ir do humor brejeiro ao drama mais denso, em virada que, para a artista, começou a ser esboçada dez anos antes com a interpretação de Sheila em “História de amor” (1995), também uma novela de Manoel Carlos, porque a personagem flertava com a psicopatia e a obsessão doentia na luta pelo amor de Carlos (José Mayer). “Sheila mudou o olhar de todo mundo dentro da TV Globo sobre mim”, rememora Lilia. Lilia se aproxima dos 50 anos de carreira, a serem festejados em 2028, com a certeza de que todos os olhares já lhe são favoráveis diante da grandeza do talento que se impôs mesmo em personagens e novelas menores. “Está sendo uma trajetória bonita, e nada fácil. Foi cheia de altos e baixos em que você tem que segurar a peteca. E tudo foi necessário”, inventaria a atriz. É com a experiência e sabedoria acumuladas nessa trajetória que Lilia Cabral acarinha e encoraja a trajetória ainda iniciante da filha, a também atriz Giulia Bertolli, revelada nos palcos ao lado da mãe, com quem encenou a peça “A lista” (2020 – 2025) durante cinco anos. Aos 30 anos. Giulia é também roteirista, produtora e dramaturga. E é nessa tripla função de atriz, escritora e produtora que a atriz prepara para 2027 a estreia da peça “Tudo que você devia saber antes dos 30”. “Eu disse para Giulia: ‘você vai ser vista, entendida e valorizada quando você estiver no palco. Não é na televisão e nem no cinema’. Eu sou muito ansiosa. Ela também é. Mas eu sei que a hora dela vai chegar. Ela vai vencer”, aposta Lilia, com a visão de quem também conciliou as funções de atriz e produtora em peças como “Divã” (2005 – 2009) e “Maria do Caritó” (2010 – 2015). “Tudo veio com conforto, delicadeza e nenhum arrependimento”, contabiliza Lilia ao analisar a trajetória como produtora, com a certeza de que, no balanço de perdas e ganhos, o saldo sempre foi positivo. E é com essa positividade que a artista enxerga o futuro. “Não me dói ter passado dos 60 anos. Sempre vou dar um jeito de existir como atriz dentro de qualquer idade. As oportunidades caem em todas as profissões para quem passou dos 60. Mas não fico pensando muito nisso. Eu me alimento daquilo que sou capaz de fazer. E se você viveu tudo o que viveu, você tem muita história para contar. E você tem que somar”, receita Lilia, mestra na arte da interpretação. Como Rita Lee na música, Lilia Cabral é uma atriz que faz um monte de gente feliz.