Artes _ 15 abril 2026 _ por Mauro Ferreira

Malu Galli colhe os frutos do talento e da popularidade

Atriz encena peça em que vive mulher em fuga de homens abusivos, aguarda lançamento do filme de Miguel Falabella e planeja projeto musical com Romulo Fróes enquanto saboreia o sucesso nacional conquistado pela Tia Celina de ‘Vale tudo’.

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Formada atriz em 1990, Maria Luiza Reis Galli entrou em cena em 1991 e nunca mais saiu dos palcos, angariando prestígio ao trabalhar com diretores conceituados como Enrique Diaz nos anos 1990 e nos anos 2000. Mas até “Mulher em fuga”, peça com que a atriz carioca tem arrebatado plateias paulistanas e cariocas desde janeiro, em encenação que viajará pelo Brasil ao longo de 2026, a artista nunca tinha feito um espetáculo em que a simples presença da atriz em cena já é um chamariz para o espetáculo aos olhos do público. Sim, Maria Luiza agora já é reconhecida e chamada nas ruas pelo nome artístico, Malu Galli. O surto de bem-vinda popularidade é efeito do sucesso de Tia Celina, personagem vivida pela atriz na releitura da novela “Vale tudo”, objeto de discussões acaloradas nas redes e nas ruas ao longo de 2025. “A televisão abre portas. ‘Tia Celina’ foi um marco de popularidade. A personagem chegou no público”, corrobora Malu, que, tão logo a novela saiu do ar, virou a chave para dar vida e voz a Monique, a protagonista de “Mulher em fuga”. Monique é a mãe do cultuado escritor francês Édouard Louis, vivido por Tiago Martelli, ator produtor do espetáculo dirigido por Inez Viana. Adaptação para os palcos de dois livros de Louis, “Lutas e metamorfoses de uma mulher” (2021) e “Monique se liberta” (2024), o espetáculo “Mulher em fuga” mostra Monique em luta para romper ciclo de relacionamentos abusivos e tóxicos com homens geralmente bêbados. Durante passagem pelo Rio de Janeiro, Édouard Louis viu “Mulher em fuga” na sessão de 15 de março e se emocionou com a história da mãe, personificada com intensidade por Malu Galli em momento em que o Brasil assiste, indignado, a uma escalada de violência física contra as mulheres. “Sinto uma urgência, uma sensação de adequação de estar fazendo a peça certa no momento certo. Uma peça com final esperançoso que joga luz na escuridão”, ressalta Malu, para quem a saída para conter essa violência passa primordialmente pela educação. “Precisamos de políticas públicas, de leis e de enfrentamento do discurso de ódio. Mas tem que ter sobretudo um movimento nacional de educação que passa pelas casas das famílias e principalmente pela escola. A gente enfrenta situação de calamidade pública. Somente a educação das crianças, os futuros jovens, pode resolver. E criminalizar o discurso. As pessoas têm que ter medo de ir presas porque reina a impunidade nesse país”, denuncia Malu Galli. Mãe de Luiz Galli Tostes, nascido no domingo de Páscoa de 2001, fruto da união da atriz com o artista plástico Afonso Tostes, Malu conta que vivenciou, como toda mulher que trabalha, o equilíbrio delicado de conciliar a maternidade com a agenda profissional. “A maternidade é muito exigente, demandante. E a profissão de atriz, também. Então a gente fica muito dividida. Mas eu tive uma rede de apoio, tive o apoio da família. Mas não é todo mundo que tem essa ajuda. As pessoas precisam abrir mão dos sonhos porque o patriarcado faz a gente acreditar que o cuidado da criança é responsabilidade somente da mãe. É tudo muito injusto e cruel. A gente precisa se libertar desse sentimento de culpa”, defende Malu, que vivenciou o luto da decisão de Luiz de morar no exterior. Luiz reside na Suécia e, pela primeira vez, não pôde ver a mãe em cena no teatro, já que ainda não assistiu a “Mulher em fuga”. Malu pariu Luiz e cuidou do filho durante o período que qualifica como “anos de semeadura”. Foi a fase em que atuava basicamente no teatro em espetáculos da Cia. dos Atores e da Cia. Teatro Autônomo. O primeiro ponto de virada na carreira, em termos de popularidade, veio através da televisão. Foi em 2008, quando Malu interpretou Lúcia, uma psicóloga em crise no casamento, na minissérie “Queridos amigos”, escrita por Maria Adelaide Amaral. Foi o primeiro papel fixo da atriz na televisão. Quatro anos antes, em 2004, Malu chamara atenção no teatro com o solo “Conjugado”, outro divisor de águas na trajetória da atriz. “Antes da TV, eu fui muito feliz na ralação. Fiz trabalhos nos anos 1990 e 2000 do qual tenho muito orgulho”, ressalta a atriz, que se alimenta do trabalho e se prepara para lançar o filme “Querido mundo”, de Miguel Falabella, nos cinemas brasileiros no segundo semestre, após passagem por festival francês em Paris, em abril. O filme já rendeu um prêmio de melhor atriz para Malu na última edição do Festival de Gramado. “O filme é um sopro de esperança nesse mundo em que a gente está vivendo”, conceitua Malu. Malu, que faz solo de bateria em cena de “Mulher em fuga”, ainda prepara projeto musical com Romulo Fróes. Planeja estrear ainda em 2026, realizando o sonho da menina que vasculhava sebos de discos com os amigos e que se trancava no quarto para ouvir LPs. Será mais uma faceta dessa atriz que se considera uma trabalhadora das artes. “Não posso me dar ao luxo de ficar muito tempo parada e, ao mesmo tempo, tem a coisa da necessidade. Se estou há três meses sem trabalhar, começo a entrar em parafuso”, admite Malu Galli, a atriz da qual todo mundo já sabe o nome.