Moda _ 17 julho 2026 _ por Silvana Maria Rosso

Tiziano Guardini: da economia à revolução sustentável da moda

O estilista italiano conquistou reconhecimento internacional ao unir alta-costura, pesquisa de materiais e consciência ambiental. Com isso, está redefinindo o futuro da moda.

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Influenciado pela família a buscar estabilidade, o estilista italiano Tiziano Guardini iniciou sua trajetória na economia. Apesar de uma rápida inserção profissional, percebeu que não se sentia realizado. Desde a infância, já demonstrava interesse pela moda, desenhando roupas. Após um ano e meio de atuação na área econômica, decidiu mudar de rumo para seguir sua vocação criativa. Ingressou na escola Koefia e teve seu primeiro contato prático com a moda ao estagiar na oficina de Milena Canonero durante a produção do filme “Maria Antonieta” (2006), dirigido por Sofia Coppola, onde desenvolveu atenção rigorosa aos detalhes. Posteriormente, estudou na Accademia Costume e Moda e trabalhou com nomes importantes como Marco Vincenzo, hoje diretor criativo da Etro, e na maison Valentino, consolidando sua visão estética. Sua carreira ganhou destaque com a criação da filosofia “Ecouture”, que une alta-costura, inovação e respeito à natureza. Em 2012, apresentou a emblemática estola feita com agulhas de pinus. Em 2014, foi convidado a participar nas Nações Unidas da mostra “Fashion for Forest - Forest for Fashion”, que deu início a sua colaboração com Michelangelo Pistoletto. Em 2017, recebeu o prestigiado Prêmio Franca Sozzani de Melhor Designer Emergente, consolidando seu reconhecimento internacional. Seu trabalho, que transita entre moda, arte e design multidisciplinar, valoriza materiais naturais e propõe uma reflexão sobre sustentabilidade. Associado ao designer Luigi Ciuffreda, Guardini construiu uma carreira marcada por pesquisa, sensibilidade e inovação, tornando-se referência global. Para o designer, a sustentabilidade nunca foi tendência, mas essência. Sua filosofia, chamada “Ecouture”, nasce da união entre a alta-costura e materiais naturais, refletindo uma sensibilidade que, segundo ele, sempre esteve presente. Inspirado pelos ciclos naturais — onde não existe descarte, apenas transformação —, Guardini desenvolve um trabalho baseado no reaproveitamento de tecidos de arquivo provenientes de empresas italianas. Esses materiais, antes esquecidos, ganham nova vida em criações únicas: primeiro como composições visuais, quase quadros, e depois como mantos e quimonos. Cada peça é acompanhada por um certificado de autenticidade, reforçando o status de obra de arte. Mais do que moda, seu processo propõe uma mudança de percepção: roupas que se valorizam com o tempo e criam vínculo emocional com quem as adquire. Ao repensar a lógica da circularidade e do consumo, ele defende um modelo onde todos ganham — do criador ao comprador. “É muito importante criar fórmulas em que todos saiam ganhando”, afirma. Assim, sua produção transcende o vestuário e se alinha a uma visão mais ampla: reconectar moda e natureza, transformando criação em consciência e beleza duradoura. - O convite para participar do evento Fashion for Forest nasceu da iniciativa de Paola Deda, responsável pelo Departamento de Florestas, que havia visto um trabalho seu na TV italiana e buscava conectar moda e sustentabilidade. Foi nesse contexto que Guardini apresentou algumas de suas criações mais emblemáticas, como o vestido feito com raiz de alcaçuz. Desenvolvido em parceria com uma empresa tradicional da Calábria, o vestido traduz sua ideia de uma moda que “cresce da terra”, envolvendo o corpo de forma orgânica. O evento também marcou o início de uma relação criativa com Michelangelo Pistoletto, com quem mantém colaboração contínua. Dessa parceria surgiram projetos como a exposição itinerante “Fashion to Reconnect”, que propõe a moda como instrumento de reconexão com a natureza e a vida. Hoje, o trabalho de Guardini ultrapassa as fronteiras do vestuário, expandindo-se para o design e a curadoria. Sua abordagem reforça uma visão sensível e integrada, onde criação, meio ambiente e experiência humana coexistem. O estilista acredita que a moda não é um objeto de consumo. Em sua visão, vestir-se é um gesto íntimo que deve estar em harmonia com a natureza e com o planeta, entrando na pele e na existência de forma consciente. Ele propõe refletir sobre a relação entre ação e reação: cada escolha de consumo gera consequências, tanto para o corpo quanto para o futuro do mundo. Assim, vestir-se torna-se um ato de responsabilidade e conexão com a vida.